À janela de um apartamento típico no centro de Paris, somos apresentados à figura de um homem calmo, reflexivo, que contempla a vida como se possuísse todo o tempo do mundo. Ao redor dele, uma mosca insistente e barulhenta perturba a atmosfera de paz daquela tarde.
A mosca que surge repetidamente ao redor de Chopin – nessa, e em cenas subsequentes – funciona como um prenúncio discreto da morte, transformando a tuberculose não apenas em condição física, mas numa presença que contamina até os momentos de prazer e reconhecimento social.
Primeiros Movimentos
Dirigido por Michał Kwieciński, Chopin, uma Sonata em Paris acompanha a vida do compositor polonês durante sua estadia na capital francesa. Entre salões aristocráticos, apresentações privadas e festas da elite parisiense, os concertos de Chopin (Eryk Kulm) rapidamente se tornam artigo de luxo, não somente por sua inquestionável qualidade técnica, mas principalmente por sua presença alegre, carismática e charmosa.
Diferente das cinebiografias anteriores, nessa versão de Kwieciński conhecemos o artista por trás da máscara social, que tem a música como refúgio e ferramenta para processar emoções. E apesar do filme nos lembrar o tempo todo que Chopin é um homem condenado, é muito fácil cair no papo dele, na performance de mocinho invencível, tal qual os próprios membros da aristocracia parisiense.
Parte disso se deve ao trabalho excepcional de Eryk Kulm, que dá vida a esse jovem — em todos os sentidos da palavra —, até nos momentos de mais puro sofrimento.
Entretanto, conforme os sintomas da tuberculose se tornam mais visíveis — reforçando o prognóstico dado pelos médicos desde o início — a narrativa abandona qualquer romantização do arquétipo do artista torturado para encarar um Chopin mais humano, contraditório e até mesmo falso, se me permitem dizer.
Dissonâncias
Como se materializando essas contradições vividas pelo pianista, a trilha sonora me desconcentrou um pouco. Não sei qual foi a verdadeira intenção por trás dessa escolha, mas os sintetizadores e o estilo em si tirou a atmosfera do filme de contexto. Sempre que a trilha voltava, era como se Chopin estivesse transitando entre dimensões (eu só conseguia pensar no Mundo Invertido de Stranger Things).
Mas assumindo uma leitura de Chopin como alguém profundamente deslocado das expectativas emocionais e sociais ao seu redor, é provável que a trilha tenha sido escolhida com esse propósito de contraste e inadequação.
Embora nada tenha sido verbalizado diretamente, Chopin é retratado como alguém incapaz de se conectar emocionalmente da forma esperada pelos que convivem com ele. Seu desconforto diante das relações românticas e a sensação de que está sempre interpretando um papel acabam aproximando o personagem de discussões contemporâneas sobre neurodivergência e assexualidade.
A personagem de George Sand (Joséphine de La Baume) é a primeira a perceber isso, utilizada pelo diretor do longa como recurso narrativo para avisar ao público que tudo aquilo não passa de um grande espetáculo. Ela parece capaz de enxergar Chopin em sua essência, e é isso que os aproxima, só não da maneira que ambos gostariam que fosse.
Improviso
No último diálogo do filme, entendemos que Chopin decide abandonar por completo o personagem que havia criado para agradar a aristocracia parisiense, começando a compor apenas para si mesmo, do seu jeito, sem se importar com mais nada. Pois, pela primeira vez, não haveria espetáculo, performance ou plateia. Apenas ele e a música.
Já consciente dos últimos estágios da doença, Chopin explica que tocar piano o faz sentir-se como uma criança brincando ao lado da irmã no jardim. É quando ele se reconecta com a versão dele que é real, inocente, pura. Como se a inevitabilidade da morte se transformasse em libertação.
Última Nota
Quando eu tinha seis anos, aprendi a tocar piano. Faz mais de duas décadas que não toco. Saí da cabine de imprensa desse filme com vontade de voltar.
Chopin, uma Sonata em Paris já está em cartaz e você pode conferir o trailer logo abaixo:




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