Em 2020, o Oeste dos Estados Unidos viveu uma das piores catástrofes climáticas em termos de extensão e duração. Só no Colorado, mais de 200mil hectares foram destruídos e nisso podemos incluir propriedades, plantações, gado… Em outras palavras, uma emergência alimentar, econômica e emocional vivida por fazendeiros que perderam tudo do dia para a noite.
É nesse contexto que somos inseridos na trama de Depois do Fogo. O longa acompanha Dusty (Josh O’Connel), um cowboy do interior do Colorado que acaba de se mudar para um acampamento de trailers, dividindo espaço com pessoas que também foram expulsas de suas próprias casas devido aos incêndios.
Clima atemporal
Nos primeiros minutos, é difícil ter alguma certeza do tempo e espaço com precisão. O estilo de vida, o ritmo da narrativa e até a figura do protagonista parece nos levar a um clima meio atemporal, um entrelugar, onde a natureza dita as regras e nós simplesmente acatamos, sem questionamentos.
Aos poucos, bem gradativamente, pequenos detalhes começam a nos situar. Um comentário sobre Wi-Fi, uma lápide com a data de 2020… Mas nada é explicado de forma direta. O filme simplesmente introduz esses pequenos detalhes até que o cenário se forma quando menos esperamos.
Esses detalhes também ajudam a mostrar a diferença econômica que vivem os personagens, pois fica evidente o quanto o distanciamento tecnológico por falta de recursos influencia na reinclusão (ou reconstrução) dessas famílias afetadas pelo fogo.
Josh O’Connor
A atuação de Josh O’Connor acaba sendo um ponto meio ambíguo. O ator — que muitos espectadores podem reconhecer de Rivais (2024) ou da franquia Knives Out (2025) — interpreta Dusty como um personagem extremamente contido, sempre carregando uma fragilidade prestes a implodir a qualquer instante.
O problema é que O’Connor parece recorrer ao mesmo repertório de sempre. As expressões faciais, o sorriso tímido, a postura corporal e até o tom de voz soam muito familiares, como se ele estivesse interpretando variações do mesmo personagem em diferentes filmes.
Em alguns momentos isso chega a incomodar, porque a sensação de repetição é difícil de ser ignorada. Por outro lado, dentro do universo de Depois do Fogo, essa atuação acaba funcionando melhor do que talvez funcionaria em outro contexto. O protagonista é um homem introspectivo e emocionalmente fechado, e a presença discreta do ator se encaixa naturalmente nesse tipo de personagem.
Atmosfera bonita e aconchegante
Visualmente, Depois do Fogo também se aproxima de um tipo de drama que aposta mais em observação do que em grandes acontecimentos. Existe uma estética contemplativa que pode lembrar filmes como Aftersun (2022) ou Projeto Flórida (2017), que utilizam a câmera para acompanhar momentos simples da rotina, deixando que a atmosfera construa sua própria narrativa.
As relações pessoais seguem essa mesma lógica. Dusty divide momentos muito bonitos com a filha e também com a ex-esposa e a ex-sogra, uma relação longa que começou ainda na época de escola, e que perdura mesmo depois do divórcio. Existe um carinho evidente entre eles, apesar de todas as mudanças que aconteceram ao longo do tempo.
E o que realmente dá força ao filme é a forma como ele retrata o acampamento de trailers. O lugar poderia ser facilmente colocado como um símbolo de derrota ou precariedade, mas acaba se transformando em um lar em reconstrução. Entre os moradores surgem momentos de companheirismo e pequenas cenas de leveza compartilhada entre pessoas que passaram pela mesma tragédia.
Pequenas alegrias
Mesmo com o incêndio, com a perda da terra e com o falecimento de entes queridos, o Depois do Fogo encontra espaço para pequenas alegrias. Em vários momentos, somos tomados por uma sensação inesperada de conforto, como se fossemos lentamente absorvidos por aquela rotina simples e por aquelas famílias que se tornaram apenas uma.
Durante toda a exibição de Depois do Fogo, eu não conseguia parar de pensar em outro filme: Sonhos de Trem (2026), que está na corrida pelo Oscar 2026 em três categorias. Mas enquanto esse drama acompanha um protagonista devastado pelas perdas e pelo sofrimento constante, Depois do Fogo segue em direção oposta. A tragédia existe, é claro, mas não domina completamente a experiência.
No fim das contas, Depois do Fogo encontra sua força em algo muito mais simples do que tudo isso. Não é exatamente uma história sobre incêndios ou perdas irreparáveis, mas sobre o que permanece quando o fogo finalmente se apaga. Ou, mais importante ainda, sobre como mesmo entre cinzas ainda é possível reconstruir um lar.
O longa estreia na próxima quinta-feira, dia 12 de março, nos cinemas de todo Brasil. Confira o trailer:




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