Introdução
Quando eu estudava na Vancouver Film School, tive um trabalho para a disciplina de Teoria do Cinema com o seguinte tema: quem é meu diretor favorito e por quê?
Era 2022 e Barbie ainda nem tinha sido lançado. Mas hoje, no Dia Internacional das Mulheres, lembrei que havia escrito este artigo e achei que seria uma boa ideia compartilhá-lo com outras pessoas. Não apenas porque tirei uma boa nota nele (embora isso certamente ajude), mas principalmente porque a trajetória da Greta me inspira todos os dias como cineasta em busca de espaço.
Então, a pergunta é: por que ela?
Antes de mais nada, não temos tantas diretoras ganhando prêmios. Na verdade, nem temos tantos exemplos de mulheres recebendo crédito de direção, de forma geral. É muito difícil “chegar lá”, por tantos motivos que todas nós já conhecemos: sexismo, abuso, assédio e poucas oportunidades abertas em um mundo que parece ter sido construído para não nos encaixar.
O caminho que Greta Gerwig escolheu (talvez nem de forma intencional) foi essencial para que ela conseguisse provar o seu valor de uma maneira diferente da que estamos acostumadas na indústria.
Ela passou da atuação para o roteiro e depois para a direção, acumulando mais de 68 créditos, 93 prêmios e 290 indicações no total. Alguns de seus trabalhos de destaque como atriz incluem Frances Ha (2012), Mistress America (2015), Isle of Dogs (2018) e White Noise (2022). Ao mesmo tempo, conquistou reconhecimento com seus dois longas como diretora; Lady Bird (2017) e a adaptação para o cinema de Little Women (2019), levando-a a este ponto da carreira depois de ter lançado o tão aguardado live-action de Barbie (2023).
A arte que imita a vida
Na minha opinião, uma das melhores ferramentas que podemos ter como criadores de conteúdo é usar nossa experiência pessoal para criar algo que seja relacionável e cheio de verdade. Isso é algo que Greta tem a seu favor.
Lady Bird foi baseado nas memórias e sentimentos pessoais de Greta como adolescente nascida e criada em Sacramento, Califórnia, uma cidade pequena e tradicional, onde a igreja católica desempenha um papel enorme na vida das pessoas. Greta explorou tudo isso e traduziu para a tela através de elementos semióticos: nas entrelinhas do subtexto do roteiro, no subtexto do blocking e no subtexto da direção de arte.
Talvez ela não tenha realmente vivido tudo o que aparece no roteiro, mas certamente sabe mais do que qualquer outra pessoa como Sacramento era nos anos 80 e como amigos e familiares costumavam agir e se tratar. Greta não tinha a intenção de ser precisa sobre nada; ela apenas queria descrever e apresentar seu pequeno mundo ao público, sendo nostálgica e crítica ao mesmo tempo, como uma catarse artística em sua primeira grande produção.
Diretora dramaturga
Alguns diretores escolhem focar no blocking, outros no storyboard, outros no conceito. Greta parece se importar mais com a dramaturgia, o que é perfeitamente esperado de uma atriz, afinal.
Em entrevistas, ela revela seu método de intervenção e como se conecta com o elenco em uma colaboração de mão dupla. Como atriz, ela conhece a melhor forma de falar com o elenco: o que exatamente dizer, como dizer e quando dizer. Ela entende os limites entre ficção e realidade em que os atores incorporam os personagens e como isso pode ser extremamente valioso para diretores que desejam conferir dilemas ou temas ainda em consideração.
E, como acontece com tudo na vida, muitos diretores divergem em suas opiniões. Mas eu acredito que o melhor filme é aquele com o melhor desenvolvimento de personagens. Como seres humanos, somos naturalmente interessados em histórias, e em fofocas também. Não precisamos de efeitos especiais ou coisas do tipo para nos concentrarmos em uma boa trama.
Um filme pode ser feito com uma única locação, um único ator, um único enquadramento. Se o personagem for relacionável e intrigante, as pessoas serão facilmente capturadas pela história.
Cinematografia e Design de Produção são elementos que agregam valor e ajudam na narrativa, não existem apenas para serem bonitos. As escolhas de cada departamento precisam ter algum tipo de significado e é nisso que Greta é tão boa.
Ferramentas de direção
Na verdade, o blocking de cena não é a única ferramenta que Greta usa para administrar cenas com múltiplos personagens. Ela parece dominar também a técnica de overlapping lines, criando uma bagunça organizada na cacofonia de palavras que surge da excitação que cada cena exige.
Em Little Women, Greta escreveu notas nas decupagens do roteiro, orientando o elenco a dizer certas palavras e frases da maneira que irmãs adolescentes falariam. Ela indicou cuidadosamente as emoções e o subtexto das falas de acordo com o que estava acontecendo em cada cena e com o período de idade em que a história se passava, já que Little Women é um filme que transita da infância à vida adulta ao longo de cerca de dez anos.
À medida que Amy, a mais nova, começa a crescer, sua voz e sua forma de falar mudam drasticamente. O mesmo acontece com Meg, que de repente passa a se forçar a soar como uma esposa respeitável. Josephine perde um pouco de seu temperamento explosivo e se torna mais relaxada em sua maneira de falar. Beth e Laurie não parecem mudar tanto com o passar dos anos, mas talvez exista uma razão para isso que eu ainda não tenha conseguido identificar.
Em um vídeo do canal do YouTube da Vanity Fair, Greta diz algo que resume bem seu estilo de direção:
“o truque não é apenas onde você coloca a câmera, mas onde você coloca sua emoção com todo mundo”.
E mesmo em planos isolados, Greta consegue posicionar a câmera de forma que ela siga o caminho dos personagens, permitindo que o público descubra como eles se comportam quando acham que ninguém está olhando.
Ela também menciona os significados por trás do figurino e do design de cabelo e por que tomou certas decisões. Um exemplo é que cada “March Girl” possui uma cor principal, enquanto Marmee tem uma combinação de todas, porque ela é a mãe, ela é as quatro meninas em uma só.
Em outra entrevista, Greta explica seu processo de adaptação: ela destacou todas as falas no livro, reuniu informações de contexto sobre Louisa Alcott (a autora) e comparou as duas coisas.
Considerações finais
A desconstrução do universo feminino parece ser o principal objetivo de Greta como cineasta , o que parece justo, considerando tudo o que ela já mencionou em entrevistas.
Ela conta, por exemplo, que colegas homens disseram ter ficado surpresos com as cenas de briga em Lady Bird e Little Women, e até chocados ao perceber que garotas também brigam entre si, apenas de uma maneira diferente da que ocorre entre os garotos.
Dito isso, o sucesso de Greta parece ser uma luz no fim do túnel para a comunidade feminina, que muitas vezes se sente desesperançosa e incapaz de projetar um futuro como o dela. Claro que não é uma jornada fácil ou rápida, e até hoje Greta ainda enfrenta dificuldades para vencer prêmios em competições como o Oscar, Globo de Ouro e BAFTA.
Ela só conquistou prêmios de direção em premiações menores, mas o fato de continuar recebendo indicações nas mais prestigiadas indica alguma coisa. Isso é resultado de todos os seus esforços para lutar pelo reconhecimento das mulheres, quebrando a corrente de discriminação e ignorância e trazendo o universo feminino à superfície da indústria, não mais para ocuparmos papéis secundários, mas para reconquistarmos o protagonismo em uma história da qual todas nós fazemos parte.
PS: Uma versão mais longa deste artigo foi publicada no meu Substack para minhas besties nerds de cinema!
E se você já gostou deste artigo, provavelmente vai gostar também da lista de filmes que eu fiz no Letterboxd. Dá uma olhada aqui!




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