A shortlist do Oscar marca oficialmente o início da corrida pela estatueta mais disputada do cinema. Mas, como acontece todos os anos, ela também revela uma narrativa por trás dos bastidores. Em 2026, a narrativa que começa a se desenhar é a de uma Indústria tentando salvar seus velhos dias de glória.
E esse movimento não surge do nada. Hollywood vive uma crise de identidade que já não dá mais para disfarçar. Com o domínio do streaming, mudanças mais agressivas nos modelos de distribuição e o avanço da inteligência artificial sobre processos criativos, o cinema se vê pressionado em administrar um malabarismo entre as demandas artísticas e econômicas, numa tentativa de simplesmente sobreviver.
Não à toa, muitos dos filmes que aparecem na shortlist giram em torno de tributos a clássicos (como em Hamnet e Frankenstein); a ícones da música (Springsteen e Song Sung Blue) e dos esportes (Marty Supreme e F1); além de revisitar memórias do próprio passado artístico (Nouvelle Vague) e trazer protagonistas envolvidos com cinema (Valor Sentimental e Jay Kelly).
Presente na shortlist com O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho surge como uma das vozes mais incisivas. Em uma publicação recente em suas redes sociais, o diretor foi taxativo:
“Se as salas de cinema começarem a fechar, meu filme será exibido exclusivamente nas que irão permanecer, e nos países que defenderem frontalmente a experiência de ir ao Cinema. (…) O streaming é uma nova e espetacular forma de ver filmes, mas o streaming não pode ter o poder de acabar com a cultura da sala de cinema. São os cinemas que constroem o caráter e a história de um filme.”
A fala de Kleber vai além de um posicionamento individual. Ela traduz um dos inúmeros incômodo que vem sendo compartilhado por outros nomes centrais do cinema contemporâneo. Bong Joon-ho e Guillermo del Toro, por exemplo, também já declararam guerra aberta ao uso indiscriminado de inteligência artificial, levantando discussões urgentes sobre autoria, processo criativo e o risco de esvaziamento artístico.
No meio disso tudo, até campanhas de estúdio parecem conscientes do momento. James Cameron voltou à corrida com Avatar, exigindo técnicas de conduta bem específicas paras as salas de projeção do seu novo filme, além de um comercial cirúrgico que defende a experiência das salas como inegociáveis.
Em entrevistas recentes, Timothée Chalamet (Marty Supreme) comentou sobre a necessidade de “gritar” para ser ouvido dentro de uma indústria caótica, superpovoada e em constante disputa por atenção. A ambição do personagem — e do próprio filme — ecoa esse desejo de autoafirmação e de deixar uma marca em meio ao ruído.
Mais do que apontar possíveis favoritos, a shortlist do Oscar 2026 é um retrato do que a Academia parece interessada em defender este ano: não só filmes, mas a própria ideia de cinema.
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