Como a Criatura, o Cinema Renasce: Novo Filme de Del Toro Resgata a Experiência de Assistir Filmes

Como a Criatura, o Cinema Renasce: Novo Filme de Del Toro Resgata a Experiência de Assistir Filmes

Frankenstein é um lembrete de que nunca é tarde para recriar ou recomeçar.


Para quem já esqueceu o que é ser tocado por um filme, tá tudo bem, eu também tinha esquecido.

Faz muito tempo desde a última vez que o cinema enquanto obra artística fez sua mágica de me teletransportar para outra realidade paralela. Como Production Designer, tenho algumas suspeitas do que pode estar acontecendo.

Nos primórdios do audiovisual, o cinema era antes de tudo arte. Uma pintura que virou fotografia, que depois ganhou movimento. O cineasta que também era fotógrafo e que também era pintor dava o sopro de vida a histórias maravilhosas, capazes de nos levar para diversos mundos apenas pelo olhar. Por algumas horas, deixávamos de ser nós mesmos para habitarmos outras vidas, outros corpos e outras memórias de momentos que nunca vivemos.

Tal como a Criatura em Frankestein, a experiencia artística do cinema nos coloca numa realidade relativa onde a morte não existe, porque somos invenção e somos fantasia. Quando o filme termina, voltamos carregando lembranças que não são nossas, sensações emprestadas e uma pequena melancolia ao perceber que a vida real pode ser tão solitária quanto aquela criatura aprisionada em sua própria ficção.

Nesse contexto, o que Del Toro faz é um pouco parecido com o que Victor Frankenstein fez com sua própria criatura: costurando estilos, máquinas, efeitos e sugestões, o diretor dá vida ao que existia apenas em sua própria imaginação.

Mas isso não é nenhuma novidade para quem já acompanha o trabalho de Del Toro há mais tempo. Em seus dois sucessos de bilheteria, O Labirinto do Fauno (2006) e A Forma da Água (2017), ele repete o ofício, sempre aperfeiçoando aquilo no qual ele já era mestre: a arte de contar histórias com a delicadeza de quem entende a humanidade por dentro.

O uso de elementos essencialmente práticos (ou seja, manipulados na vida real, em estúdio), somado à caracterização dos atores, reforça não somente a criação da atmosfera visual, como também, e principalmente, o modelo cênico da dramaturgia, através de técnicas propostas por Stanislavski e Stella Adler, por exemplo.

Na busca por produtividade, fórmulas mágicas e sucesso com poucos riscos, a Indústria Audiovisual tem se afastado cada vez mais da sua zona de conforto, o que termina, mais cedo ou mais tarde, respingando nas facetas artísticas dessas produções. Então, quando algum dos nossos veteranos reaparece com obras como essa, é inevitável o efeito. Uma sensação parecida ao de voltar à superfície depois de longos segundos debaixo do mar. De ter saído de uma hibernação e relembrado como era a vida antes daquele cochilo tão longo.

Além desse ato artístico em Frankenstein, Del Toro novamente nos lembra que as Criaturas da ficção, por mais monstruosas que pareçam, seguem mais vivas que muitos de nós que as assistimos diante de uma tela de cinema.

Frankenstein está disponível na Netflix, assim como o documentário que acompanha o processo de criação artística do filme. Vale assistir com o coração aberto.

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