Cena 1: Bem-vindos ao Meu Blog!

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Assistir ao OSCARs 2025 foi como um déjà vu — mas, desta vez, com o Brasil no centro das atenções. De um café em Vancouver em 2020 à euforia do Carnaval, vamos falar sobre o verdadeiro significado desse prêmio.


Demorou um tempo até eu finalmente começar a escrever esta página. Para ser sincera, assistir ao último OSCAR me deixou com emoções um tanto agridoces. Mas antes de seguir pelo caminho da análise dos vencedores, peço licença para deixar este texto um pouco mais pessoal.

Este é o meu primeiro post neste blog. E eu só consigo pensar que é também o momento perfeito para uma boa abertura de créditos, não acham?

Então, vamos lá!

CAFÉ DOS ESTUDANTES – MADRUGADA – VANCOUVER, 2019

Um grupo de estudantes de cinema se reúne para assistir à cerimônia do OSCAR em uma tela gigante. Também é uma festa do pijama com pizza. Então, já dá para imaginar a animação. Era nossa primeira folga depois dos primeiros meses de aula. Mas o que me chamou a atenção foi a ausência dos meus colegas de turma. Na verdade, o café estava lotado de alunos de outros programas, como atuação, roteiro e computação gráfica. Lembro de checar o grupo do whatsapp de estudantes brasileiros para ver se alguém estava por lá, para pelo menos encontrar um rosto conhecido. O que é irônico, já que aquela seria a primeira vez que realmente os conheceria pessoalmente.

Como esperado, a resposta foi sim. Fiquei muito aliviada por poder me expressar em português de novo e finalmente poder fazer amigos. Naquela noite, os brasileiros me apresentaram aos amigos deles de outras nacionalidades e logo me senti incluída. Eu fazia parte daquilo.

Pequena interrupção: todo mundo sabe como os brasileiros são obcecados por futebol, certo? Pois bem, aquilo era a minha Copa do Mundo.

Mas, voltando…

OSCAR de 2020 teve tantas grandes produções que estávamos todos animados e torcendo pelos nossos favoritos. Lembro que minha mãe ligou do Brasil dizendo: “Você já está assistindo? O seu querido Timothée está fazendo um discurso”. Sim, esse foi o ano de Adoráveis Mulheres, o filme que me apresentou a Greta Gerwig, que hoje é uma das minhas maiores inspirações na indústria do cinema. Tudo isso aconteceu antes da pandemia, e eu era bem mais jovem, cheia de esperança e sonhos. Naquele tempo, éramos apenas estudantes de cinema usando pijamas e assistindo a outras pessoas ganhando prêmios. Ainda assim, compartilhando o pensamento de que mais cedo ou tarde, teria que ser a nossa vez. Parecia cada vez mais próximo de se tornar possível, estávamos empolgados.

Mas a verdade é que a indústria do cinema não se resume a vencer. Não se trata apenas de prêmios, dinheiro ou fama. A maior conquista são os amigos que fazemos no caminho. Não há nada melhor do que se divertir ao lado de quem gostamos em um set de filmagem saudável. É quase como se fôssemos crianças brincando de faz de conta com cenários e figurinos improvisados. Lembra de quando pegávamos as roupas dos nossos pais ou empurrávamos os móveis para transformá-los em uma cabana ou algo do tipo? É exatamente essa a sensação de se estar em um set gerenciado por amigos.

É claro que eu já tive momentos horríveis em sets tóxicos, pois nem tudo são flores. Mas foram os sets saudáveis que me ensinaram a lição que trago aqui. Precisamos nos divertir. Esquecer a competição. Uma equipe de filmagem deveria ser um time. Arrisco dizer que toda a indústria deveria funcionar assim. Nossa carreira é feita de projetos curtos, e estamos sempre mudando de equipe. Deveríamos celebrar os sucessos uns dos outros e estourar champanhe nas festas pós-premiação.

Dito isso, voltemos para 2025.

TODO O PAÍS – MADRUGADA – BRASIL, 2025

Em pleno domingo de Carnaval, os shows deram uma pausa para transmitir o OSCAR em telões espalhados por várias cidades. As pessoas estavam enlouquecidas porque era como uma Copa do Mundo acontecendo durante o Carnaval – só que sobre cinema. Alguns estavam até fantasiados, carregando estatuetas ou claquetes.

Carnaval não é muito a minha praia, mas toda essa situação me pareceu engraçada. É a definição do Brasil.

Já eu, passei a noite de pijama novamente, mas agora com a minha família. As indicações brasileiras estavam entre as últimas categorias a serem anunciadas, então a espera foi longa. Parecia interminável. Alguns discursos também se alongaram mais do que o necessário. Enquanto isso, meus pensamentos voaram de volta para aquela festa dos estudantes em 2020, em Vancouver. Fiquei imaginando como seria legal ver o Brasil ganhando seu primeiro OSCAR naquele mesmo lugar, com aquelas mesmas pessoas.

Os estrangeiros podem não entender, mas esse prêmio representa muito mais do que uma estatueta dourada. O Brasil deveria ser amplamente reconhecido como algo muito maior do que tem sido ao longo das últimas décadas. Nós também fazemos cinema aqui. Contamos histórias. Temos grandes atores, grandes diretores, grandes roteiristas.

Ainda Estou Aqui traz um toque delicado de artistas pessoalmente envolvidos na história que foi retratada. Na minha opinião, um drama biográfico precisa ter emoção e conexão com o que está sendo contado. Caso contrário, vira um documentário pretensioso, sem verdade ou impacto emocional. E esse filme se destaca justamente por isso. Ainda Estou Aqui foi baseado no livro de Marcelo Paiva, um dos filhos de Rubens Paiva, e dirigido por Walter Salles, amigo da família, que chegou a visitar a casa deles algumas vezes.

Por fim, mas não menos importante, a razão pelo qual estávamos tão ansiosos por esse prêmio nos leva de volta ao OSCAR de 1999. Naquele ano, tivemos Central do Brasil indicado a Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz. O diretor era o mesmo, e a atriz era quase a mesma. Em Central do Brasil, a indicada era Fernanda Montenegro, que, por acaso, é mãe de Fernanda Torres, e também fez uma participação especial em Ainda Estou Aqui.

Para ser sincera, acho que a maioria das pessoas concordou com a escolha de A Vida é Bela como Melhor Filme Internacional em 1999; o sentimento de injustiça veio na categoria de Melhor Atriz, que foi para Shakespeare Apaixonado.

Infelizmente, naquele ano, não levamos nenhum prêmio para casa, o que deixou muita gente ressentida por mais de uma década. Agora, tivemos a chance de recuperar isso – e conseguimos, mas não na categoria pela qual todos estávamos torcendo. Ainda assim, a sensação é de que estamos reivindicando algo que sempre foi nosso. Alguns até compararam esse evento ao famoso “Roubo da Taça da Copa do Mundo”, que aconteceu não uma, mas duas vezes na história do Brasil – e que, aliás, rendeu um ótimo filme em 2016 (O Roubo da Taça).

Uau. Acho que escrevi demais, igual ao Adrien Brody naquele discurso de quase seis minutos. Desculpem por isso. Acho que o melhor é trazer minhas outras opiniões sobre o OSCAR 2025 nos próximos posts, com mais detalhes.

Por agora, é isso. Corta!

PS: Fiquem com uma foto do meu primeiro cenário como Production Designer, que por acaso tem um Pikachu na parede.


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