Crítica – Milonga

Crítica – Milonga

Visualmente bonito e delicadamente construído, Milonga parte de uma premissa forte, mas encontra dificuldades em manter o envolvimento do espectador.


Milonga, primeiro longa‑metragem da cineasta uruguaia Laura González, é aquele tipo de filme que te abraça e te desafia ao mesmo tempo. 

Após conquistar prêmios e indicações em festivais internacionais, o longa ganha lançamento comercial no Brasil pela Kajá Filmes, e tem em seu elenco a consagrada atriz chilena Paulina García (Gloria, vencedora do Urso de Prata em Berlim) e o ator uruguaio César Troncoso, conhecido pelos filmes O Banheiro do Papa e a série O Eternauta.

O roteiro parte de uma cena cotidiana observada pela diretora, que a transformou na história de Rosa (Paulina García), uma viúva que ainda carrega os traumas de um relacionamento abusivo, que parecem aprisioná-la mesmo após a morte do marido. A narrativa explora sua solidão, os desafios na relação com o filho e a redescoberta de si mesma por meio do tango, que reaparece como fio de esperança.

Visualmente, o filme é impecável. A fotografia de Sergio Armstrong cria planos de alta resolução e cores vibrantes, e o color grading ressalta cada nuance do ambiente e do estado emocional de Rosa. O contraste entre sua introspecção e a energia das milongas é um recurso estético forte, reforçando que cada enquadramento foi pensado com carinho.

Mas apesar do esmero visual e da profundidade temática, Milonga pode se mostrar desafiador para alguns espectadores. As limitações do filme parecem menos ligadas às atuações e mais ao texto, que raramente transforma os diálogos em motor dramático, soando muitas vezes como simples preenchimento de cena entre longos silêncios (o que, de certa forma, me parece intencional).

Além disso, a montagem e o design de som também não ajudam. A ausência de uma trilha musical constante e o uso insistente de sons ambiente sustentam a atmosfera meditativa do filme, mas acabam ressaltando também as lacunas da narrativa e os pontos em que a trama não parecem muito amarrados.

Em resumo, Milonga se constrói muito mais como um gesto artístico do que como uma experiência pensada a partir do espectador. A premissa é forte e a intenção é legítima, mas o caminho escolhido nem sempre sustenta o impacto que a história sugere.

Milonga já está disponível em cinemas selecionados e o trailer você pode conferir logo abaixo:

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