Crítica – Marty Supreme (com leves spoilers)

Crítica – Marty Supreme (com leves spoilers)

Todo sonho vendido como sucesso vem com letras miúdas. Aqui, elas são o texto.


Marty Supreme é um filme que se recusa a falar sobre derrota. Ele prefere o território do “quase”. Quase vencer, quase ser reconhecido, quase sair das dívidas, quase finalmente ser levado a sério. Assim, ao longo de quase três horas, que passam mais rápido do que deveriam, o longa constrói o retrato de um personagem cujo maior conflito não é a falta de talento, mas a incapacidade estrutural de transformar mérito em validação duradoura.

A quase biografia fílmica

E apesar de beber diretamente da história de Marty Reisman, Marty Supreme não é uma cinebiografia. Aliás, o ponto de partida do projeto foi quase acidental. Sara Rossein, esposa de Josh Safdie, encontrou por acaso em um brechó o livro The Money Player: The Confessions of America’s Greatest Table Tennis Champion and Hustler e o levou de presente para o marido, que posteriormente o emprestou ao seu amigo Ronald Bronstein. O livro, então, serviu como gatilho, não como molde. A partir dali, os dois criaram outra coisa: uma ficção livre, ambientada no mesmo universo competitivo, caótico e meio clandestino, do circuito profissional de tênis de mesa.

A história se passa nos Estados Unidos dos anos 1950 e acompanha Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem nova-iorquino criado por uma mãe solteira em um cortiço do Lower East Side. Marty aposta tudo numa carreira improvável como jogador profissional, e aqui vale prestar atenção: o roteiro, um dos grandes trunfos do filme, organiza sua narrativa em torno de uma multa aplicada após um escândalo em um campeonato.

É esse valor pendente que move praticamente todas as decisões do personagem, desde apostas improvisadas até acordos humilhantes e escolhas moralmente ambíguas. Marty está sempre pagando por algo, mesmo quando não entende exatamente pelo quê. 

Sonhar como ato político

Também não é detalhe que Safdie, Bronstein e Chalamet sejam judeus, assim como Reisman e o próprio Marty da ficção. O filme parte dessa vivência comum para tocar, sem discurso pronto, em um estereótipo antigo e persistente: a associação entre judeus e dinheiro. Só que Marty Supreme vira isso do avesso. A ambição do protagonista não tem nada de controle ou domínio. Pelo contrário. O dinheiro nunca está realmente na mão dele. Está sempre atrasado, condicionado, ameaçando desaparecer.

Essa sensação atravessa o filme inteiro. Há sempre um prazo perdido, uma regra atravessando o caminho, uma instância burocrática anulando o que acabou de ser conquistado. O tempo funciona como juiz implacável, e o filme parece dizer que não basta “chegar lá”. É preciso chegar no momento certo, com os recursos certos, dentro do sistema certo. Marty até vence. O talento é real. Mas nada se consolida, pois o sucesso chega torto, fora de hora, ou quando já não serve mais para muita coisa. A vitória existe, mas não conta. O que sobra é esse sentimento persistente de inadequação, de estar sempre atrasado para a própria vida.

Tem algo de cruel nessa lógica, e o filme sabe disso. A impressão é de assistir a um Rei Midas amaldiçoado pela sua própria existência, e disfarçado por uma mania de grandeza, que no seu íntimo não passa de uma tentativa desesperada de sobreviver a uma sociedade moralmente destruída. Sonhar alto, nesse caso, é uma maneira de sobreviver.

O tênis de mesa ajuda a entender isso. É rápido, técnico, pouco valorizado, quase invisível para quem não presta atenção. Assim como Marty. Um talento legítimo tratado como descartável, negociável, facilmente substituível. O que está em jogo nunca é apenas a derrota esportiva, mas a confirmação de um lugar social que ele já ocupa antes mesmo de estar na arena.

Perto demais para vencer

A atuação de Timothée Chalamet sustenta esse desconforto com inteligência. Nova-iorquino, estrategista, ambicioso desde sempre, ele parece entender muito bem o que está fazendo aqui. Existe uma vontade clara de ocupar espaço, de insistir, de ser visto. E não é segredo que Chalamet está há tempos mirando um Oscar. Sua performance no longa é fisicamente inquietante, por vezes irritante, e excessiva no melhor sentido, como se o corpo do personagem precisasse insistir para não desaparecer.

Em contraste, os outros personagens parecem quase opacos, quase figurantes. Mas de certa forma, esse desequilíbrio funciona menos como falha e mais como sintoma. Safdie desenvolve um personagem preso a um ciclo cujo reconhecimento chega sempre tarde demais para ser útil. Talvez Marty ocupe espaço demais porque o mundo insiste em não lhe dar nenhum.

No fim das contas, Marty Supreme é uma fábula estranha e incômoda sobre perder mesmo quando se ganha. Sobre chegar perto demais do sucesso e ainda assim sair devendo. Nada explode, mas nada se resolve. Ele existe nesse espaço desconfortável do quase, de estar perto demais para ser ignorado e longe demais para ser legitimado por um sistema que só reconhece quem já começa em vantagem. É um filme sobre ambição, sim. Mas, acima de tudo, sobre o desgaste de viver permanentemente à beira da validação.

Marty Supreme estreia oficialmente no Brasil a partir do dia 22 de Janeiro e você pode conferir o trailer logo abaixo:


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