Kleber Mendonça já se tornou uma das figuras mais importantes do cinema nacional, não somente por sua coleção campeã de bilheteria, mas principalmente por seu posicionamento em defesa da indústria e da liberdade criativa.
Com Agente Secreto, ele mais uma vez traz sua leitura honesta (e de certa forma, divertida) dos mistérios pernambucanos que beiram ao realismo fantástico. Ele brinca com elementos simbólicos em contextos sem pé-nem-cabeça, mas que dentro da narrativa faz bastante sentido.
O Agente Secreto já ganhou mais de 30 prêmios internacionais e recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro, que acontece neste domingo (11), além de ter entrado na pré-lista do OSCAR e do BAFTA. Isso demonstra a força de produções fora do eixo Rio-São Paulo, que aos poucos tem dado mais espaço para que outras histórias, de outros “Brasis”, sejam apresentadas ao redor do mundo.
Mas antes de tudo, é preciso contextualizar uma questão. Por muito tempo, o nordeste brasileiro tem aparecido no cinema em tons exóticos, caricatos, e desrespeitosos, inclusive. Quase sempre através dos olhos do forasteiro, que aparece nas férias e não participa da verdadeira cultura do lugar.
Quando nomes como Kleber chegam à Indústria, tudo muda. Pra melhor. Porque ele subverte e ressignifica esses elementos, criando filmes que funcionam tanto para quem está conhecendo a região agora, quanto para aqueles que a vivem diariamente. No caso de O Agente Secreto, não seria de outra maneira.
Por carregar em suas raízes a cultura recifense, o diretor trouxe lendas urbanas como O Tubarão que engole turistas desavisados; a Perna Cabeluda que ataca casais na pracinha; o carnaval mais longo do Brasil que dura o filme todo; o faroeste slash que transita entre heranças do Cangaço e das narrativas de Tarantino; mas o que ele quer mesmo mostrar é como Recife é uma cidade plural, enigmática e cheia de mistérios. Talvez uma versão nossa de Stranger Things, quem sabe? (okay, talvez eu tenha forçado um pouco aqui, mas consigo ver uma semelhança).
Apenas dois pontos realmente me incomodaram, embora não a ponto de enfraquecer o filme. O principal deles é a linha do tempo ambientada no futuro. Todos aqueles cortes para as meninas ouvindo as fitas parecem existir apenas para quebrar o ritmo do bang-bang, abrir espaço para Wagner Moura exibir seu talento e versatilidade inegáveis e, ao mesmo tempo, justificar convenientemente um final em aberto.
O segundo ponto é justamente o título. Passei exatamente duas horas e quarenta minutos esperando aparecer um agente secreto ou uma trama sobre um agente secreto. Mas basta uma reflexão um pouco mais aprofundada para entender que todo o longa, incluindo o título, se utiliza de uma história fantasiosa e hiperbólica que suaviza os relatos de tortura, perseguição e desaparecimento no Brasil dos anos 70.
Assim como todos os inquilinos da Dona Sebastiana precisavam de um nome falso, O Agente Secreto e sua respectiva narrativa também precisaram. E mesmo assim, funciona sendo interpretado dos dois jeitos.
O Agente Secreto está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil. Confira o trailer abaixo:




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