No que está pensando? É a frase que permeia toda a vida de Parthenope (Celeste Dalla Porta), protagonista que dá nome ao filme mais recente de Paolo Sorrentino, e que também representa os muitos questionamentos levantados pelos personagens que a cercam.
Ancorado nos mitos gregos que contam a história do surgimento de Nápoles, o longa nos leva a uma experiência sensorial quase hipnótica. Em certo ponto, parece possível mergulhar na tela e sentir o cheiro de maresia, o sol tocando a pele, as ondas ninando os ouvidos. Os primeiros minutos do filme são contados dessa maneira. Imagens que parecem quadros, sons que parecem sinfonias de orquestra, o proposital encantamento das sereias ao viajantes que chegam pelos mares.
Aos poucos, somos tomados de volta à realidade e a algumas explicações acerca do conceito de beleza. “Você tem consciência do desconforto que causa nas pessoas com a sua beleza?“, um dos personagens pergunta à protagonista, que já suspeitava daquilo. Neste momento, outras histórias brotaram na minha memória. Dorian Gray, Narciso, e até mesmo Eva, considerada a primeira mulher do mundo bíblico. No fim, a mensagem segue sendo a mesma: No que você está pensando? Volte para seu casulo. Em outras palavras, é a sociedade alertando sobre os perigos da beleza e da consciência de quem se enxerga belo. E como na maior parte do tempo o belo foi relacionado às mulheres, a nós também se direcionam as repressões.
É interessante a maneira como a cidade de Nápoles foi personificada pela figura de uma mulher que recebeu o nome daquela mesma sereia dos mitos. Precisei pesquisar um pouco antes de escrever este texto e descobri que Sorrentino escolheu misturar elementos de diferentes versões desse mito, abandonando o pudor ou compromisso com a verdade. E de fato, assistir a Parthenope é como ouvir ou ler uma história antes de dormir; tem aquele tom de aventura e realismo fantástico, que a gente só aceita, sem tentar entender muito.
Mas apesar disso, senti como se o filme tivesse sido feito para um público específico, sem se preocupar em explicar ou contextualizar o cenário construído através de releituras e metáforas milenares. Como se exigisse do espectador uma bagagem maior de referências para não se chocar com algumas partes.
Desde o início, reconheci indicações discretas de que alguém iria morrer e de que se tratava de uma tragédia grega. Mas será que todo mundo percebeu? E, mesmo que tenham percebido, ainda assim estariam dispostos — ou preparados — para testemunhar o encantamento, que também esconde o erotismo, dos vários familiares de Parthenope, por quem deveriam sentir apenas amor?
E aqui eu reflito pensando nas centenas de outras histórias gregas e romanas, retratos de uma sociedade de uma época específica, mas que já não fazem mais sentido numa obra cujo tempo ficcional seja o século 20. E embora a proposta de Parthenope seja justamente a de criar uma dimensão paralela — onde tempo e espaço são meio indefinidos —, tudo isso cai por água abaixo por conta das marcações em letterings a cada nova fase de uma vida inteira da protagonista, desde seu nascimento em 1950 até sua aposentadoria em 2023.
Uma solução simples, e que não entendo o porquê de não ter sido usada, seria substituir as marcações de ano por marcações de idade. Dessa forma, a atmosfera misteriosa seria mantida e nossos olhos da modernidade poderiam assistir com menos julgamentos. Deixaríamos de tentar encaixar aquela dimensão fílmica nas regras sociais que vivemos hoje. Afinal de contas, nós estamos em 2025, lidando com um momento histórico delicado, e certos temas poderiam ser melhor trabalhados para evitar interpretações distorcidas ou equivocadas.
Em algum momento, encontrei semelhanças com o longa The Dreamers (dir. Bertolucci, 2003), com questões igualmente problemáticas, mas por incrível que pareça, aqui, em Parthenope, a abordagem é um pouco mais convincente. Principalmente para aqueles que possuem o embasamento de referências ao qual me refiro.
A princípio, somos apresentados ao trio de melhores amigos que ilustram a primeira parte do filme. É difícil ter certeza do tipo de relação que existe entre eles, pois há sugestões de que são todos irmãos, mas ao mesmo tempo, de que há sentimentos conflitantes entre si. Somente na segunda parte é que vem a confirmação de que Sandrino (Dario Aita), primeiro interesse amoroso de Parthenope, é filho da governanta. Apesar disso, há uma certa sugestão de que Raimondo (Daniele Rienzo), que é realmente irmão dela, possua desejos proibidos, os quais, graças a Deus, não foram concretizados hora nenhuma.
Também há uma brincadeira entre Parthenope e seu padrinho (Alfonso Santagata), que é referenciada em mais de um momento, em que ele a pergunta: “se eu fosse mais novo, você casaria comigo?” e ela responde “o senhor ainda me desejaria se eu fosse mais velha?”. Honestamente, acredito que essa frase, assim como as outras mencionadas aqui no texto, refletem os desafios que Parthenope — que representa não somente a cidade de Nápoles e a sereia do mito, mas também o arquétipo feminino — enfrenta pelo simples fato de nascer mulher e estar vivenciando sua juventude.
Ao pesquisar o que falavam de Parthenope no Letterboxd, encontrei um comentário que me arrancou boas risadas. Disseram que parecia um longo comercial de perfume, o que de fato faz sentido, visto que a Saint Laurent assina a produção do filme cujo tema principal é a beleza, no sentido mais puro da palavra.
Partindo disso, e de todos os questionamentos colocados ao longo da narrativa, eu me pergunto: se tirássemos toda a beleza cinematográfica, se tirássemos as cores saturadas, o cenário paradisíaco, o áudio das ondas, os planos que parecem quadros, os figurinos bem arrumados… Se tirássemos tudo isso, ainda teríamos um bom filme?
Parthenope estreia oficialmente nos cinemas brasileiros no dia 20 de março de 2025. Confira o trailer abaixo:




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